Salgueiro do Campo - NA LENDA E NA HISTÓRIA

As lendas são a memória de um povo. Foram e são, na cultura popular, a forma mais eficaz de perpetuar os acontecimentos que marcaram uma determinada população, durante a lenta caminhada dos séculos.

Contadas à lareira, nas longas noites de Inverno, passaram de geração em geração e foram-se transformando no decorrer dos tempos. Evoluíram da base verídica que as originaram, até à forma fantástica que lhe conhecemos agora.

Quem conta um conto aumenta-lhe um ponto, dizem as gentes do povo. 

Com base em quatro lendas, que os avós na aldeia de Salgueiro do Campo, ainda contam aos seus netos e bisnetos, vão-se relacionar factos históricos marcantes na evolução da aldeia, não perdendo de vista a origem da lenda: narração de uma ocorrência real, provando, deste modo, a importância do relato popular como herança cultural e histórica, contributo fundamental para a preservação da nossa identidade.

Mesmo após todos os testemunhos físicos, terem desaparecido.

A Casa da Moura

“Noutros tempos existia no Salgueiro do Campo uma cabana no alto da serra da Penha, que lhe chamavam a Casa da Moura. Esta, tinha dantes, à maneira de um altar que foi destruído por um pedreiro, que a utilizou na construção da sua casa na Rua da Serra”

(Moura, Carlos - Contos, Mitos e Lendas da Beira)

Parece ser um dado adquirido que há milhares de anos existe população residente na área do Salgueiro do Campo. Atestando este facto, estão os achados arqueológicos, recolhidos em 1911 no Salgueiro, Palvarinho e Juncal do Campo por Francisco Tavares Proença Júnior, nomeadamente, machados neolíticos e variados vestígios romanos.

Olhando com atenção para o relevo destas terras, encontramos, na imensa planura do campo albicastrense, três grandes elevações dignas de registo: a serra da Penha, a serra da Raposa e a serra de São Brás. Perto, apenas se lhes comparam, em tamanho e altitude, a serras da Cardosa e o monte de S. Martinho, ambas em Castelo Branco.

Nestas condições, os habitantes primitivos escolhiam, naturalmente, as maiores elevações para se protegerem dos rigores do clima e das feras que então existiam nas densas florestas, pelo que não é de estranhar que nestas serras se encontrem testemunhos de fixação humana. Na serra de S. Brás, ainda existem vestígios de ali ter vivido uma população bastante antiga. Encontram-se ali, restos de explorações metalíferas e também o que parecem ser as ruínas de construções circulares e de uma espécie de fortaleza, construída com pedras amontoadas.

Estrabão, famoso geógrafo romano, descreve os Lusitanos como uma “população rude empoleirada no cimo dos montes, vivendo da caça e pastorícia [...] alimentando-se de bolota, da carne e do leite dos rebanhos”. Vitrúvio, por seu lado, também nos fala destes povos e refere que ainda encontrou nas “nações estrangeiras” cabanas em que se espetavam no chão uns paus e se entrelaçavam neles pernadas de árvores que se barravam com terra gorda seca.

Da serra da Penha, que interessa para este estudo, não nos chega nenhum testemunho físico destes factos, mas sim uma lenda. A lenda da Casa da Moura.

Esta referência aos mouros é comum na tradição oral popular. Quando os relatos se referem a factos de enorme antiguidade, diz-se que a história é do tempo dos mouros. No entanto, habitualmente, esses relatos têm origem ainda mais antiga, muitas vezes de características pré-romanas, como parece ser o caso desta lenda.

Cometendo a ousadia de extrapolar das diversas particularidades desta lenda, poderemos concluir que a povoação do Salgueiro terá tido as suas origens num passado longínquo, no alto da Penha, procurando os seus habitantes protecção nas características da serra. As construções teriam a forma de cabana, talvez com muros baixos, em pedra solta e com cobertura vegetal.

Uma delas poderia ter funções de templo, pois sabe-se que os povos primitivos, nomeadamente os Lusitanos, erguiam os seus templos junto às habitações, no cimo dos montes. Nestes locais, adoravam as suas divindades, que relacionavam com fenómenos naturais. Para essa devoção, usavam as aras, que são pequenos monumentos em pedra, à maneira de um altar, com inscrições e insígnias esculpidas nas suas faces e que eram dedicadas à divindade venerada. Nelas, colocavam-se oferendas e, por vezes, também eram usadas para realizar sacrifícios.   

Os romanos, após conquistarem a Península, obrigam estas populações a descer aos vales e terrenos mais férteis, transformando lentamente o seu modo de ser.

De pastores e caçadores passaram a ser pacíficos lavradores, trabalhando pedaços de terra bem demarcados, usando novas técnicas e processos agrícolas, obrigando-se a um novo relacionamento com a terra e, consequentemente, à alteração do sistema de povoamento. Encontram-se, aliás, por todo o sopé destas serras numerosas lagariças que serviriam para o fabrico do vinho e que, segundo alguns autores, apresentam características romanas ou, quiçá, ainda pré-romanas. 

Este conquistar das encostas das serras fez-se com grande afinco, abrindo socalcos onde o casario desce naturalmente, muitas vezes construído sobre anteriores construções ou usando materiais já existentes, retirados de casas que se iam degradando. Por este facto, e pela sua fragilidade, não chegaram aos nossos dias construções desse tempo.

Nesta descida para os vales a povoação incorpora na sua evolução as características dos povos e civilizações que por aqui tenham passado, que se manifestam essencialmente na produção agrícola e em novas técnicas e produtos; como o arado, o lagar de varas, o regime de propriedade, o vinho e o azeite -legado da civilização romana - e novos sistemas de irrigação (picotas, noras,...)  trazidos pelos mouros.

Dos primeiros tempos da povoação, não nos chegaram vestígios físicos, mas tão só, como vimos, uma lenda. No entanto, é curioso observar na toponímia da aldeia a existência de uma rua chamada Casal da Serra, que dá acesso à parte mais antiga e superior do povoado. Segundo Alberto Sampaio, o vocábulo “casal” refere-se a uma fracção de uma villa rústica romana que adquiriu, no decurso do tempo, o estatuto de propriedade independente. Leite de Vasconcelos, na sua Etnografia Portuguesa, refere que o termo “casal” se generalizou no sentido de um lugar.

A cristianização e a reconquista, encontraram a população perfeitamente organizada, introduzindo sim, novos hábitos, agora mais de carácter espiritual. Aos residentes impôs-se a obrigação de se edificarem templos para cumprirem os deveres religiosos, que no caso do Salgueiro parece ter sido a capela de São Sebastião. De acordo com alguns autores, a escolha de um santo padroeiro para uma capela ou igreja pode dever-se à sua localização. Os templos dedicados a S. Sebastião eram erguidos nos limites das povoações, num caminho de grande utilização e passagem de muitos viajantes, existindo sempre por perto um poço ou uma fonte que saciava a sede dos viajantes e funcionando o estatuto guerreiro do Santo, como vigilante e protector dos habitantes.

 

A Fonte do Salgueiro

“Em tempos que já lá vão há muito, em que os matagais eram contínuos e, pelas feras existentes, perigosa a sua travessia, os almocreves, nas suas viagens para ou da charneca, costumavam-se agrupar-se numa fonte – a actual Fonte Fria – de água sempre pura e cristalina, perto da qual havia um enorme salgueiro. Era a fonte do Salgueiro.”

(Moura, Carlos - Contos, Mitos e Lendas da Beira)

Com a Reconquista, as fronteiras foram-se consolidando. Os povos incrementaram as suas trocas comerciais, escoando os produtos resultantes da prática agrícola, por caminhos que ligavam as populações mais importantes e por onde circulavam pessoas e bens. 

Pelo Salgueiro, passava um destes caminhos, que ligava Abrantes a Castelo Branco, passando pelas Sarzedas, aglomerado populacional bastante importante na Idade Média. Esta via parece ser antiquíssima, e fundamental no desenvolvimento do povoado. Atravessa-o longitudinalmente, de nascente para poente, passando junto à capela de São Sebastião, e ao lado do casario que se crê ter pertencido ao primeiro aglomerado populacional, em direcção à Fonte Fria, nos limites da povoação.

A primeira referência escrita que se faz da existência do Salgueiro é de 1182. Fala-nos dos limites da doação da Herdade de Vila Franca da Cardosa, de Fernando Sanches, aos Templários, assinalando-lhe os limites e incluindo S. Lourenço do Salgueiro.

Em 1472, aparece novamente uma referência directa, na doação de terras de D. Fernando a Gonçalo Vaz, “A Gonçallo Vaaz de Castellbranco previllegio per lhe he coutada e defesa huuma terra e termo de Castellbranco que sse chama do Salgueiro e Lorpio e Pay Alvarinho”   

A referida via era vital para a circulação de pessoas e bens entre as duas regiões, tendo o Salgueiro sido ponto de passagem obrigatória para muitos mercadores. Apesar da paz estar consolidada e as fronteiras perfeitamente definidas, as viagens de terra em terra continuavam a ser perigosas e penosas. A região estava coberta por extensas e densas florestas, onde viviam muitos animais selvagens (os ursos nesta região extinguem-se apenas no séc. XVI) e os percursos, tinham muitos obstáculos naturais, difíceis de transpor.

Da charneca para Castelo Branco, partiam carregos de azeite, castanhas, cereais, carvão, entre outros produtos. Esta actividade tinha dois sentidos, transportavam-se os produtos da região para os locais de escoamento e, no regresso, carregavam-se outros bens necessários para abastecer e aprovisionar as populações da charneca.

Estas tarefas eram realizadas pelos almocreves, vendedores ambulantes que conduziam os animais carregados com mercadorias no seu dorso. A expressão “almocreve” já era usada no séc. XIV e, com o decorrer dos tempos generalizou-se e aplicou-se, depois, a todos os mercadores que usavam grandes carros, puxados por juntas de vacas ou parelhas de mulas.

As dificuldades das viagens obrigavam a que elas fossem repartidas por etapas. Em determinados locais do percurso existiam locais estratégicos para proporcionar descanso aos homens e animais. Um deles era a Fonte do Salgueiro, local de passagem obrigatória pela sua situação geográfica e topográfica. Aqui estava-se já às portas de Castelo Branco, mas havia ainda uma grande dificuldade para vencer: a travessia do rio Ocreza. Nesta passagem, extremamente íngreme, era comum juntarem-se vários almocreves que aparelhavam várias juntas de animais para, em conjunto, puxarem cada um dos carros e o respectivo carrego, de uma margem para outra. 

Esta via de comunicação e os edifícios mais importantes, como a igreja, trouxeram as casas, do cimo da serra, para junto de si e, deste modo, o casario cresce dando origem ao lugar. As casas, à medida que foram sendo construídas, originaram quelhas e vielas para sua serventia e dos quintais. Posteriormente, com novas edificações, foram derrubados alguns muros e até algumas construções de menor importância, transformando as quelhas em ruas, criando novos espaços para posteriores construções.

Com o passar do tempo, a povoação foi envolvendo a capela de S. Sebastião e, talvez pela sua pequenez ou degradação, surgiu a necessidade de construir outro templo, de maiores dimensões, agora dedicado a S. Pedro, havendo dele referências em 1563, dando-o como anexo de “santa maria e são miguel da vila de castelo branquo”.

Esta igreja está também construída no mesmo caminho, que adquire assim o estatuto de eixo estruturante do povoamento do Salgueiro. O centro da povoação desce novamente e consolida-se junto a este novo templo, surgindo a divisão, que perdura até aos nossos dias, da aldeia em dois bairros: o da alta e o da baixa. Na baixa, aparece o rossio que, segundo Leite de Vasconcelos, era um espaço baldio, transformado progressivamente em logradouro público, junto à povoação, e onde se realizavam determinados actos, como festas ou feiras. Este espaço originou a praça, à medida que a povoação cresceu e o rossio passou a ser envolvido pelo casario.

 

A Casa do Capitão Desterrado

Na rua do Rossio, existe uma casa datada de 1603. Esta casa, diziam os antigos, foi mandada construir por um capitão que tinha sido desterrado para estes lados.

(tradição oral)

A casa a que se refere a lenda tem dois pisos. Um, térreo mais baixo que a própria rua, servido por uma porta larga, e outro, superior, que possui duas janelas a ladear uma porta. Esta terá sido inicialmente servida por um balcão ou escadaria e, posteriormente, transformada em janela.

A frontaria é rebocada e, pelo tipo de pedras que estão à vista na base, os muros são construídos em alvenaria, pedras irregulares ligadas com argamassa de barro.

É, no entanto, nas suas cantarias, que apenas saem levemente da superfície, onde estão os traços únicos, caracterizadores desta casa. As janelas com os seus lintéis e ombreiras, dão, no conjunto, uma noção de unidade, como se fossem uma peça única, originando também uma extraordinária sensação de leveza. A sua superfície é trabalhada, com uma ranhura de secção triangular, mas muito suave, no centro da pedra, e paralela aos seus lados, repetindo-se esta decoração em todas as peças, ladeando as janelas e a porta. No topo, os lintéis tocam-se levemente, unidos por pequenas peças com o mesmo trabalho, formando uma linha única, que percorre horizontalmente toda a casa.

No lintel da porta superior, além da data, nota-se um pequeno bico, num rebordo em forma de pequeno friso e comum também a todos os lintéis. As suas ombreiras são, na sua base, um pouco mais largas e sem a reentrância comum aos outros elementos, o que faz pensar que a base da porta seria rematada com uma soleira. No topo da ombreira, a pedra também alarga. No entanto, este alargamento não é feito com curvas, como na base da porta e nas janelas, mas com linhas rectas. No lado de fora das ombreiras, onde estas alargam, estão uns pequenos ornatos em forma de cones invertidos.

É curioso notar a alternância introduzida no alargamento das ombreiras. Enquanto nas janelas laterais este alargamento é na base, na porta ele é feito no topo.

A base das janelas é constituída por uma superfície plana, com curvas e contracurvas. A rematar esta pedra, encontramos uma pequena peça constituída por motivos florais invertidos. Finalmente, a ladear as janelas há duas mísulas, de forma esférica, para os vasos de flores.

Ao olharmos para esta casa, notamos um carácter interventivo global, onde nada foi deixado ao acaso e em que todos os elementos arquitectónicos se interligam, num perfeito resultado. Não é, deste modo, difícil concluir que esta obra não terá sido projectada por um vulgar pedreiro, para um qualquer proprietário, mas terá sido riscada por alguém, com outro tipo de cultura e vivências, que não abundariam, nesta altura na região. Note-se que, no início do séc. XVII, está ainda em vigor em Portugal o estilo manuelino, com um exemplo claro na janela da casa do lado (1572), enquanto na Europa se começa a experimentar e desenvolver o que se veio chamar, estilo Barroco.

Se esta casa foi mandada construir pelo tal capitão desterrado, a que a lenda se refere, a sua arquitectura é mais fácil de explicar. Sem nos preocuparmos pelas razões do seu desterro, talvez pela ocupação filipina que decorre nesses tempos, vamos apenas centrar-nos na sua condição militar.

É no séc. XVI que, nos maiores centros populacionais, se desenvolve o processo de especialização e hierarquização dos diferentes cargos na direcção e construção das obras. O crescimento do território e consequente necessidade de defesa, obrigam ao estabelecimento de determinados procedimentos, nomeadamente na construção ou reparação de fortificações. Assim, considerando as necessidades do Reino e os técnicos disponíveis, pode supor-se que os pedreiros de maior ciência passaram a ser engenheiros militares.

Estes, incentivados pelo poder, esboçam um primeiro esquema institucional de transmissão de saberes, surgindo assim profissionais com competências na gestão urbanística. Estes militares, com grande influência da cultura italiana, devido a uma série de trocas de experiências e conhecimentos, e pelo desenvolvimento das ciências no âmbito dos Descobrimentos, tornam a arquitectura militar como veículo de um novo gosto. É neste espírito que se funda, em 1594, em Lisboa, a primeira verdadeira escola de arquitectura e engenharia, a Aula do Risco.

Será assim lícito concluir que, se este capitão existiu, não terá passado ao lado destes novos conhecimentos, gostos e formas de pensar, o que explica a construção de um edifício com estas características numa terra votada ao isolamento, separada do resto da nação por uma autêntica muralha montanhosa, longe de todos os centros de decisão e onde as intervenções mais ousadas na arquitectura, apenas se resumiam nuns discretos rebordos nas arestas das janelas e portas ou simples ornatos nos lintéis.

Foi, pois, construída no remoto lugar do Salgueiro, nos primeiros anos de uma nova era para o mundo, uma casa de arquitectura vanguardista que inclui na sua fachada uma série de elementos, caracterizadores de um gosto que pouco tinha ainda entrado em Portugal: o Barroco, um estilo caprichoso e floreado com as suas curvas e contracurvas, contra a frieza da arquitectura anterior, de forma a criar um grande impacto e espectacularidade.

A ter existido, só resta saber quem era esse Capitão. A sua passagem por estas terras, olhando para a casa que deixou, não deve ter sido discreta.

O Marmeleiro do Francês

Aquando da primeira invasão francesa o exército invasor seguia em direcção a Castelo Branco. Sendo informados da resistência que os aguardava na Soalheira alteram o seu trajecto em direcção às Sarzedas.

Nesse trajecto o Salgueiro foi também vítima das atrocidades do exército francês.

Um dia, pela manhã, chegaram eles triunfantes. O povo, enlouquecido, fugia escondendo-se nos sítios mais montanhosos, com alguns haveres e géneros alimentícios.

O corpo do exército seguiu em direcção a Sarzedas ficando no Salgueiro um pequeno destacamento. Numa casa situada por cima da Capela de S. Sebastião morava uma mulher chamada Joana de Almeida que foi presa pelos franceses, e era obrigada a cozinhar para eles e a indicar, sob ameaça de morte, onde havia outros alimentos, bebidas e haveres.

Ao se saber que os franceses, derrotados pelos ingleses, se preparavam para abandonar o país, procurou-se o tirano francês, autor de tanta velhacaria, afim de o castigar. Bateram-lhe duramente, arrastaram-no para um lugar a poente do cemitério e ali o enterraram, ainda com alguns sinais de vida.

No local foi posta uma vara de marmeleiro, que ganhou raízes e se desenvolveu, a qual está hoje transformada em autêntico marmeleiro.

Chamam-lhe ainda hoje o “marmeleiro do francês”  

(Rafael, Agostinho - Subsídios para a monografia de Salgueiro do Campo)

Início do séc. XIX. Na Beira Baixa, a vida corre com a normalidade do costume. Às pessoas, apenas as preocupa a chuva que cai sem parar e tem dificultado as lides do campo. Chove como não há memória. A safra da azeitona foi duríssima. No entanto, os potes estão cheios de bom azeite. Na adega, o vinho está na última fervura e a arca está cheia de pão, ganho com muito suor nas ceifas. O porco, se não descansa já na salgadeira e no fumeiro, passa os últimos dias no furdão, aguardando o banco da matação.

O que estas gentes não sabem é que este Inverno ainda vai trazer outro tipo de tempestades. Aqui, está-se longe de tudo e de todos. As notícias chegam tarde e a população não sabe que os grandes países europeus se encontram em estado de guerra e, devido a uma série de alianças estabelecidas, Portugal se encontra à mercê das tropas francesas de Napoleão.

Enquanto aumentam os esforços diplomáticos para resolver esta crise, Napoleão acorda secretamente com Espanha a invasão e posterior divisão de Portugal pelos dois. Simultaneamente, concentra em Bayonne um corpo de exército com milhares de homens de infantaria, cavalaria e artilharia. Para comandar esta força expedicionária, escolhe o general Andoche Junot, antigo embaixador em Lisboa, a quem dá ordens para se posicionar na zona de Valladolid, Zamora, Salamanca e Ciudad Rodrigo, colocando-se assim junto à fronteira com Portugal.

Ao aproximar-se de Valladolid, Junot é informado que Napoleão ordenara marcha para Lisboa, não pela linha do Mondego, como estava inicialmente previsto, mas pela margem direita do rio Tejo, entrando por Alcântara/Segura e prosseguindo pela Beira Baixa até Abrantes e, daí, para Lisboa. Por este trajecto, mais curto, pretendia-se alcançar rapidamente a capital, não dando tempo à evacuação da corte portuguesa.

No entanto, não consideraram, talvez por desconhecimento, que este percurso, apesar de ser o mais curto, é o que oferece as piores condições para a progressão de um grande exército. O terreno é agreste, com grandes declives vales e enormes matagais. Os caminhos praticamente não existiam. Apenas possantes rezes os transitam, a custo, e as populações, pobres e sem recursos não revelam vontade de colaborar no abastecimento do exército.

A 19 de Novembro, o exército invasor cruza a fronteira. Em marchas forçadas, vencendo o mau tempo e a dureza dos terrenos, os franceses prosseguem abrindo caminho pelos matos, usando os poucos caminhos e veredas, ultrapassando ribeiras em enxurrada, pela chuva que não pára. Das espingardas fazem bordões para se ampararem. As botas, há muito que se romperam nos cascalhos e lamas.

A juntar a tudo isto, existia também a dificuldade de aprovisionamento. Como não traziam consigo qualquer tipo de abastecimentos, saqueiam as populações. Para isso dividem a coluna em vários destacamentos, que progridem espalhados, para permitir uma pilhagem mais eficaz, pois o território é pouco habitado.

Por vezes, à frente vai uma guarda avançada, em enganadora missão de paz. Contactam as autoridades para requisitar provisões, os chamados boletos, que seriam pagos. Nalguns, logo germina a oportunidade de negócio. Mas os acontecimentos vão-se desenrolar de forma mais vil.

A comida é arrancada aos camponeses e comerciantes à força de roubos directos ou das duvidosas requisições, que não eram pagas. Qualquer resistência é resolvida com a ameaça das baionetas.

O primeiro reagrupamento é feito em Castelo Branco. São verdadeiros maltrapilhos, sujos, rotos e esfomeados que, praticamente de surpresa, a 20 de Novembro de 1807, entram na cidade. Com grande alarido, as tropas instalam-se nas igrejas, que transformam em casernas e estábulos e onde o mobiliário e as imagens servem para atear fogueiras. Após se servirem das provisões roubadas, passeiam-se pela cidade provocando tumultos. As mulheres que não fogem são molestadas, tal como as que são apanhadas.

Segundo um famoso manuscrito, escrito na época, pensa-se que pelo Bispo de Castelo Branco, D. Vicente Ferrer da Rocha, “ Naquêle dia 20 de Novembro de 1807, dia assaz memorável, e que será de eterna lembrança para os habitantes de Castelo Branco, das seis para as sete horas da noite chegou inopinadamente a esta cidade um Comissário do Império Francês, trazendo ordem [...] para que sem demora se aprontasse cinco mil rações de pão carne e vinho para cinco mil homens franceses e espanhóis que estavam para entrar na cidade”. Segundo o mesmo documento, até 3 de Dezembro aquartelaram-se ou transitaram pela cidade para cima de 56.400 homens de infantaria e 5320 cavaleiros.

Neste dia, “pelas nove horas da manhã marcharam pelo caminho do Salgueiro em direitura às Sarzêdas, e juntamente toda a artelharia, que aqui se tinha demorado há dois dias”

Em Janeiro de 1808, a onda invasora termina. Vencidos apenas pelo terreno, pois as populações recebem ordens para não interferir, os invasores não conseguem chegar a Lisboa, a tempo de impedir a partida da corte portuguesa, que se transfere para o Brasil. Em Portugal, quem passa a governar são os franceses com a ajuda de alguns colaboracionistas. Nas localidades mais importantes, ficam pequenos destacamentos para assegurar a ordem e o domínio.

Pelo país, circulam patrulhas, acudindo onde eram necessárias, pois, alguns meses após se consumar a invasão, já havia escaramuças e rebeliões contra as tropas invasoras. Uma dessas patrulhas, com cerca de 400 homens era comandada por uma personagem sinistra, o general Loison, alcunhado “o maneta” por ter perdido um braço em combate, e extremamente famoso pela sua crueldade. É aliás desta época a expressão “ ir para o maneta” , pois ele castigava com a morte qualquer suspeito, praticando, por onde passava, actos extremamente sanguinários.

Esta coluna, após receber informações sobre uma possível resistência na serra da Gardunha, entra em Alpedrinha e arrasa a povoação, causando inúmeras vítimas e destruição. Daqui, dirige-se para Castelo Branco, provocando nas populações enorme e justificado pânico.

No dia 6 de Julho de 1808, “estava tudo pronto para aquela maldita tropa [mas devido] às suplicas de alguns justos [ao que parece pelos bons serviços do Bispo Vivente Ferrer,] aquele monstro larga a estrada que vem para esta cidade, passando pela estrada de Tinalhas em direitura á vila de Sarzedas e acampando no Chão da Vã, perto do lugar do Salgueiro”

No primeiro dia de Agosto, os ingleses finalmente desembarcam e combatem as tropas francesas. Destas, as que se encontram dispersas pelo país, recebem ordens para se reagruparem, travando as batalhas da Roliça (17 de Agosto) e do Vimeiro (21 de Agosto). Por todo o território a revolta rebenta e as populações, antes retraídas, atacam nas colunas e destacamentos os franceses que se separam ou ficam para trás para satisfazer alguma necessidade ou pilhagem.

Finalmente, a 30 de Agosto, os franceses derrotados, capitulam, assinam a rendição e retiram por via marítima.

Agora o fluxo de tropas inverte-se. As tropas inglesas ocupam posições junto à fronteira e a cinco de Novembro “ chegou [a Castelo Branco] um Comissário Inglês e (...) pediu carros e bois para ir buscar as Sarnadas pólvora e balas (...) e pouco depois voltou a requisitar 600 rações de pão, carne e vinho para 300 soldados comerem nas Sarzedas”.

Estes são os factos históricos, que relatam os acontecimentos da época e provam a passagem de muitos milhares de homens, em saque permanente, na região do Salgueiro. Assim, a lenda será baseada em factos reais, e não custa a acreditar, que a população, quando se tenha sentido mais segura e respaldada pela progressão dos ingleses e resistência dos portugueses tenha executado algum infeliz francês, retardatário, como retaliação de algum roubo ou apenas por vingança.

 Nota Final

As lendas, transmitindo oralmente factos e ocorrências têm contribuído para a sobrevivência de um passado, todo ele rico em actos de esforço e resistência, no meio das mais adversas condições.

E a nossa sociedade que queremos moderna e culta, se quer encarar o futuro com a determinação dos nossos antepassados, não deve esquecer a sua herança cultural e histórica, fazendo com que sejam valorizadas e acarinhadas, fortificando, deste modo, a nossa identidade.

Bibliografia

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