O NATAL

O Natal é considerado, com justa razão, a festa da família.

Geralmente as famílias reúnem-se para passarem em conjunto a quadra festiva. Mesmo quando tal não é possível, um sentimento de saudade desperta mais intensamente nesta época.

Passados os Santos, os jovens, com as silvas que retiram das vedações das propriedades, atulham o canto do adro, junto à torre, e que hão-de servir para atear o madeiro que os rapazes que no ano seguinte vão às «sortes» têm obrigação de fornecer (actualmente, após obras de restauro na Igreja, o madeiro acende-se no largo da Estrada).

Enfrentando o gélido frio da noite, mas não esquecendo nuca o garrafão da bagaceira para «aquecer», aí vão eles de camioneta -- que substitui hoje os carros de bois que antigamente eram utilizados -- para cortar e transportar azinheira ou sobreiro secos, antecipadamente solicitados ou até, em certos anos, surripiados.

Na noite de Natal acende-se a fogueira. À roda dela e pelas ruas, grupos de rapazes cantam em louvor do menino Jesus:

Ó meu Menino Jesus
Ó meu menino tão belo,
Logo vieste nascer
Na noite do caramelo.

Alegrem-se os Céus e a Terra
Cantemos com alegria!
Já nasceu o Deus Menino
Filho da Virgem Maria.

Ó meu Menino Jesus
Meu lindo amor-perfeito,
Se vós tendes frio vinde
Vinde parar a meu peito.

Alegrem-se os Céus e a Terra
.......................

Entrai pastores entrai
Por esse portal sagrado,
Vind'adorar o Menino
Numas palhinhas deitado.

Alegrem-se os Céus e a Terra
.......................

Ó meu Menino Jesus
Da lapa do coração,
Dai-me da vossa merenda
Que minha mãe não tem pão.

Alegrem-se os Céus e a Terra
.......................

Ó meu Menino Jesus
Convosco é que eu estou bem,
Nada deste mundo quero
Nada me parece bem.

Em casa as mulheres ocupam-se no fabrico das filhós.
Com farinha, ovos, aguardente e azeite, prepara-se a massa a horas convenientes para que à noite, depois de «finta», se proceda à operação final.

No joelho, sobre alva toalha de linho, a massa é estendida em círculos e posta a fritar no azeite da caldeira de cobre ou do tacho de zinco, aquecido por «cavacas» de azinho para o efeito guardadas.

Intervaladas com as canções do Menino Jesus, ouvem-se também referências às filhós:

Quem me dera, quem me dera,
Quem me dera cá na mão,
As «filhoses» da caldeira,
O vinho do garrafão.

Feitas as filhós, tem lugar a consoada que há-de durar até à hora da Missa do Galo.

Os rapazes, porém, e muitos homens já casados preferem, em grupos de dez ou mais, fazerem em conjunto a «patuscada» nos lagares ou nas adegas, que de um modo geral dura até de madrugada.

À meia-noite tem lugar a Missa do galo e após ela, como nos demais domingos até dia de Reis, é dado a beijar o Menino Jesus. Na Igreja assume lugar de relevo o presépio que de tarde as catequistas armaram com as imagens apropriadas e o musgo que as crianças trouxeram do campo.

No dia seguinte, dia de Natal, grupos de homens percorrem as ruas de adega em adega, na prova das filhós que, como a canção indica, com o vinho não fazem mal.

Natal, Natal,
Natal, Natal,
«Filhoses» com vinho
Não fazem mal.

 

Presépio

Presépio - Natal 2002

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