A VINHA

Segundo António Roxo, na sua Monografia de Castelo Branco, Salgueiro em 1930 -- incluía ainda a vizinha povoação do Juncal como anexa -- era a freguesia do concelho de Castelo Branco com maior importância vinícola.

Possuidora de 203 hectares de vinhedos, seguia-se-lhe a freguesia de Castelo Branco com 162 hectares e Tinalhas com 120.

Podemos hoje afirmar que, se não conserva o lugar de destaque quanto à área ocupada por vinhedos, mantém-no no entanto quanto à qualidade do vinho produzido.

Em 1956, numa conferência em Lisboa para comemoração de mais um aniversário da «Casa de Gouveia», subordinada a um tema regional, o conferencista referia-se ao salgueiro nos seguintes termos: «entre Castelo Branco e Orvalho encontra-se Salgueiro famoso pelos seus vinhos».

Para o conferencista o vinho é famoso. Para o salgueirense o vinho é somente uma «rica pinga», mas para aqueles que vagueiam pelas festas e romarias é classificado nelas como «VINHO DO SALGUEIRO».

São as uvas do Salgueiro muito procuradas pelos habitantes da zona da charneca com o fim de melhorarem os seus vinhos, pois as uvas ali produzidas são pouco adocicadas e dão um vinho de baixo valor alcoólico e de deficiente paladar.

Assim, e talvez por não serem poucas as pessoas que partilham desta opinião e ainda porque quando assim é a imaginação nos leva sempre bastante longe, surge-nos no espírito a seguinte pergunta:

-- Não seria o Salgueiro uma região vinícola comparada a outras do País se novos métodos de fabrico aqui fossem introduzidos?

Geralmente a plantação do bacelo fazia-se depois de surribado o terreno, à picareta, em valas sucessivas. Era a  «surriba à manda». Porém, se o terreno era solto, utilizava-se o sistema de «covachos» que consistia em abrir covas rectangulares para a plantação de dois bacelos.

O bacelo era plantado em linha, a intervalos de 1,20 metros (cinco palmos).
Actualmente têm-se feito plantações alinhadas de 2 a 3 metros de distância de modo a permitir a utilização dos tractores.

A preparação do terreno para a plantação é hoje feita por «buldozers».

O bacelo é enxertado ao fim de um ou dois anos e as castas mais utilizadas são o arinto, o castelão, o baldorão branco e o calmete.

A vinha é baixa. Porém, junto aos terrados e nas hortas, há por vezes «latadas» altas nas quais as castas predominantes  são o setil e o ferral próprias para a produção da uva de mesa.

A vindima é feita em fins de Setembro e princípios de Outubro.

As uvas são transportadas em cestos, às costas dos apanhadores para um carro de tracção animal ou veículo motorizado que as leva para a adega.

O vinho faz-se de bica aberta, em lamegos ou balseiros. As uvas são esmagadas por máquinas próprias (esmagadeiras), havendo ainda quem utilize o cirandão ou o esmagamento com os pés (em dornas), se é pequena a quantidade.

Durante 6 a 8 dias, e de 12 em 12 horas, há recalques da massa para permitir o arejamento do mosto e facilitar o desdobramento do açúcar em álcool (em linguagem popular «bater o vinho»).

Passado aquele período, o mosto é guardado em pipas, onde termina a fermentação.

A massa é destilada em alambiques para o fabrico de aguardente.

«Pelo S. Martinho vai à adega e prova o vinho». E o salgueirense, aos Domingos, em grupos por vezes numerosos, percorre as adegas no cumprimento daquele adágio.

Vinha

Vinha  

Alambique

Alambique em funcionamento

Recolha da aguardente

 

A SURRIBA À MANDA

Os musicólogos Fernando Lopes Graça e Jacometti estudaram as cantilenas que se faziam nas zonas vinhateiras das Beiras, sendo provável que, em tempos de grande produção, se tenha verificado no Salgueiro o que eles chamam de bacelada.

A bacelada era o canto próprio da cava à manda para o plantio do bacelo, tarefa que se realizava entre Dezembro e Março. O capataz da bacelada é o mandador e os bons mandadores eram disputados pelos proprietários e recebiam jorna superior à dos cavadores. Embora cavando também com os seus companheiros, a tarefa principal do mandador consistia em manter, mediante o seu "canto", o ritmo do trabalho, aproveitando, no entanto, o ensejo para inserir no "canto", improvisos destinados a fazer chegar aos ouvidos do proprietário certas reinvindicações de ordem colectiva.

Por seu turno, os proprietários fomentavam por vezes rivalidades entre os mandadores a seu soldo, sempre no intuito de manter ou acelerar o ritmo do trabalho.

Aqueles etno-musicólogos opinavam que só com dificuldade as cantilenas da bacelada se poderiam considerar uma espécie musical. Mais do que um canto, afirmam eles, "trata-se de um ritmo, associado a um grito ou brado de estímulo este, na verdade, já embrionariamente musical".

Nos anos quarenta já a bacelada tinha quase caído em desuso.

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